A primeira vez que Luis apareceu em minha porta, trouxe consigo o cheiro do mar e uma chave inglesa. Seus olhos azuis brilhavam como o céu de inverno de Cananeia, e seus ombros largos quase não cabiam no batente. "Dona Neia, a mãe me mandou consertar o chuveiro", disse, erguendo a ferramenta como se fosse um troféu. Eu, com meus 43 anos, seios fartos e um coração ainda marcado pelas palavras do ex-marido — *"Você engordou, Neia. Já não te quero"* —, deixei-o entrar. A água jorrou inesperadamente, encharcando sua camisa branca. Ele a tirou sem cerimônia, revelando uma mata de pelos dourados no peito. "Precisa de ajuda pra secar?", perguntou, estendendo a toalha. Mentira. Ele queria molhar mais.
Os dias seguintes foram uma coreografia de mentiras e ferramentas esquecidas. Luis voltou para "ajustar a pia" e me encontrou descascando jacas no quintal. Seus dedos longos envolveram os meus na polpa pegajosa. "Jacas são como mulheres: dura por fora, doce por dentro", ele disse, lambendo o suco que escorria do meu pulso. Ri nervosa, mas ele não sorriu. Era sério. Sério como o fogo que acendeu em mim quando, dias depois, consertou a rede do quintal e me convidou para "testar". Caímos rindo no chão quando a rede se rompeu. O riso virou suspiro, e o suspiro virou algo mais. Suas mãos, calejadas de consertar o mundo, exploraram cada curva do meu corpo como se fossem sagradas. "Você é tsunami", ele sussurrou, enquanto eu arfava sob seu peso, meus dedos enterrados em seus cabelos encaracolados.
Marta, minha amiga de aventuras e panelas, começou a notar meu sorriso constante. "Tá virando coruja, Neia?", brincou, sem saber que era seu próprio filho quem me mantinha acordada nas madrugadas. Luis aparecia na escola com desculpas frágeis — "trouxe doações" — e me empurrava contra sacos de arroz no armazém escuro. "Tá quente aqui, não tá?", ele provocava, desabotoando meu uniforme de servidora pública. Eu respondia com sarcasmo, mas meu corpo traía-me: gemidos abafados, unhas cravadas em suas costas peludas.
A quase descoberta aconteceu num domingo chuvoso. Marta chegou inesperadamente enquanto Luis consertava o fogão. Meu avental, manchado de molho de peixe, serviu de álibi. "Ele tá ajudando com as doações", menti, evitando seu olhar. Luis, rápido como a maré, desviou: "Tia Neia faz um ensopado que até Jesus voltaria pra comer". Marta riu, mas eu vi a sombra da dúvida em seus olhos.
As noites eram nossas. Numa banheira improvisada com água salgada e pétalas de hibisco, Luis lavou meus cabelos cacheados. "Você é templo, Neia. E eu sou o devoto mais fiel", murmurou, beijando minhas costas. Virei-me, sentando em seu colo na água morna. Nossos corpos moveram-se em ritmo lento, as pétalas colando-se à minha pele negra como constelações. Ele traçou cicatrizes e estrias com a língua, transformando vergonha em orgulho.
O conflito explodiu quando Marta encontrou uma foto nossa na praia. "É montagem!", gritei, mas Luis, imóvel como rocha, assumiu tudo: "Mãe, eu amo ela. E não é erro". Tentei fugir, arrumei uma mala com pressa de quem carrega culpas. Ele me alcançou no cais, sob chuva torrencial. "Eu sou a âncora que vai te afundar!", chorei. "Âncora não afunda. Ela segura o barco pra ele não se perder", respondeu, segurando meu rosto. Ficamos.
No domingo de São Pedro, Luis puxou-me para dançar no meio da praça. As senhoras cochicharam, os pescadores riram, mas ele não soltou minha mão. Marta, de lágrimas nos olhos, trouxe um bolo. "Cuida bem dela, filho", disse. E eu, Edneia, mulher de corpo marcado pela vida e coração restaurado por um amor proibido, entendi: o amor não pede licença. Ele dança.
Na última cena, Luis ergueu-me no colo durante o fandango, nossos corpos colados. "Você é minha primeira e última maré", sussurrou. Eu ri, grisalha e radiante, enquanto o sol mergulhava no mangue. Cananeia, com seus sussurros e sal, tornou-se testemunha de uma história que o mar jamais esquecerá.
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És muito linda esse conto adorei, me deixou muito excitado